terça-feira, 10 de março de 2009

Vozes d'África - Castro Alves - 11 de junho de 1868


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes Embuçado nos céus?Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito...Onde estás, Senhor Deus?...Qual Prometeu tu me amarraste um dia Do deserto na rubra penedia— Infinito: galé! ...Por abutre — me deste o sol candente, E a terra de Suez — foi a corrente Que me ligaste ao pé...O cavalo estafado do Beduíno Sob a vergasta tomba ressupino E morre no areal.Minha garupa sangra, a dor poreja, Quando o chicote do simoun dardeja O teu braço eternal.Minhas irmãs são belas, são ditosas... Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas Dos haréns do Sultão.Ou no dorso dos brancos elefantes Embala-se coberta de brilhantes Nas plagas do Hindustão.Por tenda tem os cimos do Himalaia... Ganges amoroso beija a praia Coberta de corais ...A brisa de Misora o céu inflama;E ela dorme nos templos do Deus Brama,— Pagodes colossais...A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...A mulher deslumbrante e caprichosa,Rainha e cortesã.Artista — corta o mármor de Carrara; Poetisa — tange os hinos de Ferrara,No glorioso afã! ...Sempre a láurea lhe cabe no litígio...Ora uma c'roa, ora o barrete frígio Enflora-lhe a cerviz.Universo após ela — doudo amante Segue cativo o passo delirante Da grande meretriz.....................................Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada Em meio das areias esgarrada,Perdida marcho em vão!Se choro... bebe o pranto a areia ardente; talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!Não descubras no chão...E nem tenho uma sombra de floresta... Para cobrir-me nem um templo resta No solo abrasador...Quando subo às Pirâmides do Egito Embalde aos quatro céus chorando grito:"Abriga-me, Senhor!..."Como o profeta em cinza a fronte envolve, Velo a cabeça no areal que volve O siroco feroz...Quando eu passo no Saara amortalhada... Ai! dizem: "Lá vai África embuçada No seu branco albornoz. . . "Nem vêem que o deserto é meu sudário, Que o silêncio campeia solitário Por sobre o peito meu.Lá no solo onde o cardo apenas medra Boceja a Esfinge colossal de pedra Fitando o morno céu.De Tebas nas colunas derrocadas As cegonhas espiam debruçadas O horizonte sem fim ... Onde branqueia a caravana errante, E o camelo monótono, arquejante Que desce de Efraim......................................Não basta inda de dor, ó Deus terrível?! É, pois, teu peito eterno, inexaurívelDe vingança e rancor?... E que é que fiz, Senhor? que torvo crime Eu cometi jamais que assim me oprime Teu gládio vingador?!........................................Foi depois do dilúvio... um viadante, Negro, sombrio, pálido, arquejante,Descia do Arará...E eu disse ao peregrino fulminado:"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...— Serei tua Eloá. . . "Desde este dia o vento da desgraça Por meus cabelos ululando passa O anátema cruel.As tribos erram do areal nas vagas, E o Nômada faminto corta as plagas No rápido corcel.Vi a ciência desertar do Egito... Vi meu povo seguir — Judeu maldito —Trilho de perdição.Depois vi minha prole desgraçada Pelas garras d'Europa — arrebatada —Amestrado falcão! ...Cristo! embalde morreste sobre um monte Teu sangue não lavou de minha fronte A mancha original.Ainda hoje são, por fado adverso, Meus filhos — alimária do universo,Eu — pasto universal...Hoje em meu sangue a América se nutre Condor que transformara-se em abutre,Ave da escravidão,Ela juntou-se às mais... irmã traidora Qual de José os vis irmãos outrora Venderam seu irmão.Basta, Senhor! De teu potente braço Role através dos astros e do espaço Perdão p'ra os crimes meus! Há dois mil anos eu soluço um grito...escuta o brado meu lá no infinito,Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

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